Resenha: NGC Borges, NGC Flacko, ‘AK do Flamengo’

Eles não são de facções. Eles não são do mundo do crime. Eles não traficam armas. Eles não vendem drogas. Mas eles estão fazendo tanto barulho quanto os tiros desse AK do Flamengo.

 

Os tiros desse AK soaram tão longe que se tornou um vício. A música-ímã dos crias Borges e Flacko caiu nas graças do povo. Tem chegado tão longe quanto o próprio time que faz jus ao título. E os números não mentem: o vídeo no YouTube bateu 500.000 visualizações em 48 horas; 1 milhão em quatro dias; 1,6 em uma semana; e para finalizar bonito, já passou de mais de 5 milhões de acessos. (“AK do Flamengo” se tornou uma das músicas mais acessadas de 2019 desde quando saiu do forno da BlakkClout em 9 de Dezembro.) Ela estava nas recomendações da plataforma. Em alta no YouTube.

 

A música

Produzida pelo próprio Flacko cujo beat fascinante traz uma melodia aprazível e acompanha um piano instigante, o registro realça uma realidade tão sincera e impactante que seria um crime hediondo não ressaltá-la. O conteúdo aqui abordado ressalta bem a realidade de muita gente que vive nas favelas do Brasil, não só do Rio de Janeiro.

Antes de Borges e Flacko cuspirem suas rimas nos deparamos com um depoimento sucinto mas profundo de um morador-que-virou-traficante. (Inclusive, sua voz lembra bem o humorista Rafael Portugal. Risos.)


Os dois reppers aqui apresentados são dois jovens vorazes em expor suas realidades de acordo com as suas possibilidades — e através da música eles estão conseguindo. A liberdade de expressão é tudo que eles têm. É a água que refresca suas gargantas. É o ar que eles respiram. Vale mais que tudo.

Com um flow dopante e linhas venenosas, Borges fecha a cara e vai fundo, intimida seu adversário caso ele queira bater de frente com seu AK (“Sobe na madruga, vamos ver quem cai (…) Se brechar na cinco vai ser muita bala”). Ele expõe seu dissabor pela polícia despreparada que sobe o morro; pelo policial que fica dentro do Caveirão e não sai para trocar tiro (“Polícia safado, sai do Caveirão!”). Ele não quer saber do arrego (“Foda-se o arrego, tô cheio de ódio”), e se garante caso um inimigo tenha audácia de bater de frente com ele (“Fala que é bandido, mó marra de brabo/ Então pia na reta, tenta me pegar”). Sua tropa está formada, ele é o patrão — como Flacko disse.

Flacko faz jus à sua produção e surfa na batida. Escorregando mais que manteiga, seu estilo único e lírica afiada deixa claro seu potencial. Ele dá fuga nos cana, e lotado de drogas, vivendo ao redor dessa vida bandida deixa claro seu dissabor pelos que só viram crime no filme mas bancam o contrário por aí. Seu balão na orelha e o outro acendido pelo cria o impulsionou tanto quanto seu cabelo na régua feito minuciosamente. Além do mais, sua insatisfação pela UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) é notória, uma vez que isso só serviu para o Estado gastar dinheiro à toa — porque querer diminuir a intensidade do tráfico ou acabar com ele é como secar gelo. E, por fim, se hater ficar de graça vai ser pego de longe pela sua mira red dot (ou pelos seus crias).

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Videoclipe

Filmado no Jacaré, foi dirigido por Brenald Carvalho. Os crias juntaram sua turma e montaram uma bancada onde as drogas são vendidas, assim como também aparecem em outra parte, aparentemente em cima de uma laje. Eis um trabalho bem feito. Todas as cenas, os efeitos adicionados no vídeo torna a obra em algo extraordinário. Tudo muito bem elaborado.

Borges, com sua cara fechada que mais parece um chefe, faz seus movimentos precisos segurando seu AK do Flamengo, na contenção e pronto para a trocação (se for preciso).

Flacko age tão naturalmente quanto um outro chefe vindo de outra área e tivesse brotado para atuar com Borges. Ele não hesita em transpor suas rimas. Cada gesto diante da câmera o torna apto para o próximo.

 

 

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