Revisão: Project Pat, Mista Don’t Play: Everythangs Workin

Project Pat deu luz ao Mista Don’t Play: Everythangs Workin em 27 de Fevereiro de 2001, já com uma bagagem nas costas. Gravado entre 2000–2001 no Hypnotize Minds Studio em Memphis, Tennessee, a produção teve as mãos plenas de DJ Paul e Juicy. O disco foi tão bem recebido nas ruas que teve um absoluto e merecido #4 na Billboard após vender 500,000 cópias, e o álbum foi certificado Ouro pela RIAA rápido, um mês e dois dias depois, em 29 de Março.

Quando Pat veio com esse álbum o hip-hop do Sul já estava no mapa tanto quanto as costas Leste e Oeste. Jogadores como Three 6 Mafia, 8Ball & MJG, OutKast, os caras da Cash Money Records, Fat Pat, Big Hawk e inúmeros outros já tinham o hábito de aparecer ali nos gráficos da Billboard. No entanto, as duas costas citadas anteriormente já não estavam mais no topo — e assim seria por longos anos, porque o hip-hop do Sul viria a dominar durante boas décadas. Era só o começo.

Pat começou sua carreira com aparições nos primeiros lançamentos de seu irmão Juicy J com DJ Paul no início dos anos ’90. Depois de cumprir vários anos de prisão por roubo e sumir do mundo das gravações por um tempo, ele reapareceu e se tornou um membro não oficial do então recém-criado grupo Three 6 Mafia de Juicy e Paul, e passou a surgir na boca do povo quando explodiu com o refrão para o hit “Sippin’ on Some Syrup” em 2000.

 

 

Após lançar-se com mais êxtase no jogo, ele fundou o grupo Hypnotize Camp Posse junto com Gangsta Boo e Three 6 Mafia. Entretanto, as coisas começaram a ganhar uma certa instabilidade. Isto é, “Chickenhead” e “Don’t Save Her” estavam nas ruas e obtiveram um espaço no rádio, e seus videoclipes foram parar no BET e na MTV, mas ele violou a liberdade condicional e iniciou uma sentença de quatro anos de prisão depois que armas sem licença foram descobertas em seu carro durante uma parada de trânsito. Com isso, em 2002, Pat dropou outro álbum antes de cumprir seu tempo na prisão, Layin’ Da Smack Down, e aí ele já era uma cara conhecida.

 


 

Capa

Feita pela Pen & Pixel Graphics, empresa de Houston, Texas, não temos Project Pat exibindo seu bling como na maioria das capas feitas pela Pen & Pixel, sobretudo, a fonte usada sim brilha, e ele segura um rolo de dinheiro. É cabível ressaltar também a luz que vem do céu e ilumina diretamente o porta-malas do carro que, aberto, podemos ver que tem body bag preto dentro, ou seja, aquele saco preto que carrega os corpos de pessoas mortas.

 

O disco

Pat tem mais referências a drogas em suas letras do que um texto de farmacologia — mas deixa espaço para uma dose saudável de humor, é claro (“Chickenhead”, por exemplo).

DJ Paul e Juicy J forneceram a Pat uma produção perfeitamente profunda, demoníaca e densa. O álbum modestamente clássico exibe todas as habilidades e sons de Pat. Em um estado atual do hip-hop cuja originalidade é uma raridade e as realidades são falsificadas, Pat tem uma capacidade fabulosa de contar histórias, trazendo seu flow único junto de uma produção monstruosa que tornou esse projeto num marco.

A sabedoria de rua de Pat induz brilho energético nas músicas “Break Da Law” e “Aggravated Robbery”. Suas expressões teatrais reflexivas em transações de drogas, pistolas e cafetinagem dão uma visão das perspectivas de como era North Memphis naquela época. O artista atual se vangloria e incentiva as fachadas falsificadas da vida de vender drogas. A música de Pat reflete a verdadeira realidade do tráfico de drogas. Em “If You Ain’t From My Hood”, Pat cospe, “Weak ass hoes play games like they killers/ Always running mouths, bragging on they niggas/ Cypress Gardens, I did not have no dough/ No fresh clothes because a player was real poor/ I was locked up 201 wearing bo bo’s/ Playing dominos, shooting dice, big ol’ afro/ Now I’m on the town and I’m laying the smack down/ Nigga I ain’t you, best to check my background” [Prostitutas fracas jogam jogos como assassinos/ Sempre criando confusão, gabando-se de seus manos/ Cyrpress Gardens, eu não tinha dinheiro/ Nem roupas limpas porque era um jogador realmente pobre/ Eu estava trancado no 201 usando [sapatos] bobo’s/ Jogando dominó, jogando dados, [cabelo] grande e velho afro/ Agora estou na cidade e estou no controle da situação/ Nigga, eu não sou você, melhor para verificar meu histórico].

Em “Cheese and Dope” Pat lança, “Out here slanging on this blade prayin that I don’t get cut/ By these police making raids, jumping out and checking nuts/ Cutting balls down to crumbs, babbage weed is in my lungs [Aqui balançando nesta lâmina rezando para que eu não seja cortado/ Por esses policiais fazendo batidas, vindo e checando/ Cortando bolas em farelos, a erva está nos meus pulmões]. Aqui ele descreve sua ansiedade por ataques policiais e procedimentos de busca enquanto distribui narcóticos.

No segundo verso, Pat bota para fora, “Quarter bird what’s the word? For you dog, it’s da low/ Sellin me babbage weed but you want the purest snow/ I’ma go, I’mma pull, me a rabbit out a hat/ Ounce of cane mixed with sugar and some killaz strapped wit gats [Quarto de cocaína, qual é a palavra? Para você mano, isso é baixo, me vendendo maconha de péssima qualidade, mas você quer a neve mais pura/ Eu vou nessa, eu vou tirar um coelho do chapéu/ Grama de cocaína misturada com açúcar e alguns assassinos armados com pistolas]. Um cliente de Pat tem uma consulta de preços. No entanto, Pat está descontente com a qualidade da maconha que recebeu deste cliente. Em resposta, Project financia os pedidos de cocaína de seus clientes.

“We Can Get Gangsta” é uma das anetodas mais impressionante de Project Pat. A narrativa reflete detalhes terrivelmente gananciosos de assaltos à mão armada e acordos de drogas que deram errado. Pat recebe uma ligação de seu mano recém-preso Gangsta Fred. “I gotta call from my dawg, Gangsta Fred jus da other day/ Met some nigga from da other way, wanna purchase yay/ Said dey wanna get good shit for da low-low/ Fred grew-up wit dis nigga by da Bayou/ Could be da po-po, that’s the way my mind think/ Thought about the shit for a minute, then I took a drank/ Thinkin of a coma, knowin I ain’t gonna fall/ Call up my cousin, Poncho, let em rob, assault/ Den he ball off, wit da goods to a rendez-vous, spot/ Handed Fred back his dope, den we split da loot [Recebi uma ligação do meu mano Gangsta Fred no outro dia, conheci algum idiota do outro lado, queria comprar yay/ Disse que eles queriam comprar um bom produto para usar no lowrider/ Fred cresceu com esse idiota do Bayou/ Poderia ser a polícia, é assim que minha mente pensa/ Pensei no idiota por um minuto, depois tomei um drank/ Pensando em letargia, sabendo que não vou cair/ Chame meu primo Poncho, deixe-o roubar a todos, depois ele vai embora com as mercadorias em um ponto de encontro/ Devolve a droga a Fred, então dividimos o malote]. As intenções de negociar uma transação de cocaína emboscada não seguiu como planejado.

We can set this shit up, for a, secluded area
Tell them bring himself, and the duffle-bag carrier
Met him 4am, hit Creek Hill, at a Exxon
In a hot car, tec-9 and a rouger gun
Another nigga came, with the nigga, they got out of ‘Lac
Fred slammed the door, crossed the trunk, “Where the cheese at?”
Nigga took a sniff, and he seen that the shit was straight
Said that the loot was in his trunk, now I’m thinking, “Wait.”
“What’s going on?”, partner took the dope off the trunk
Raising up my tec, nigga in the trunk, raised the pump
Bullets popped off, Fred caught one, in the chest
Lucky for my nigga, he was wearin bulletproof vest
Shootin tech, but I coulda died, cause it jammed up
Pump at my dome, dat’s when Poncho feet had slammed up
Shot da .45, blowin both niggas azz off
Think we got em down, with da cheese and da sawed-off

Podemos criar uma armadilha para uma área isolada
Dizer a eles para os próprios levaram junto com o porta-sacolas
Encontrá-los às 4 da manhã, em Creek Hill, no Exxon
Em um carro quente, tec-9 e uma arma rouger
Outro nigga veio com o nigga, eles saíram do Cadillac
Fred bateu a porta, fechou o tronco, ‘Onde está o dinheiro?’
Nigga deu uma fungada, e ele viu que a merda estava armada
Disse que o malote estava no porta-malas, agora estou pensando, ‘Espere.’
‘O que está acontecendo?’, o parceiro tirou a droga do porta-malas
Levantando minha tec-9, nigga no porta-malas, levantou a arma
Balas dispararam, Fred pegou uma no peito
Sorte para o meu nigga, ele estava usando colete à prova de balas
Atirando de tec, mas eu poderia morrer, porque ela atolou
Atingiu minha cabeça, foi quando os pés de Poncho bateram
Tiro da .45, atingindo ambos os niggas
Acho que os derrubamos, com o malote e a cano serrado]

Essa música tem versos tão realistas que lendo em português é extremamente cabível desenharmos a cena. Pat matou nessa música. Disparadamente uma das faixas que destavam e enriquecem o projeto.

No terceiro verso ele raps,

Two weeks later, still knowin bout tha fuckery
Move that a nigga pulled, spot a police watching me
Watching me, cause I fit description of a suspect
Pulling me, over, now he asking where my license at
‘Officer, I done left my wallet at tha house, sir’
Still took me Down-town, cause the police don’t care
Down in lower-level, man a simple situation
Turned into, a 72-hour investigation
I’ma ex-con, so I don’t need a walk through
To this jail shit, wondering, ‘Who did they talk to?’
Could’ve been my dawg, not my nigga, that’s a hell no
They done found my tec, but I ain’t got shit to tell ya’ll
Feeling kinda sick, cause they finna send me up the river
Couldn’t be a snitch, cause I can’t tell on my nigga
Tec, didn’t match the gun, Woons (police) about to let me go
Stuck wit the gun
Charge, violated my parole

Duas semanas depois, ainda sabendo sobre a merda
Traga aquele nigga, localizei um policial me observando
Me observando, porque eu me encaixo na descrição de um suspeito
Me abordando, agora ele está perguntando onde está minha licença
‘Oficial, eu deixei minha licença em casa, senhor’
Ainda me levou para o centro da cidade, porque a polícia não se importa

No nível inferior, cara, uma situação simples
Transformada em uma investigação de 72 horas
Eu sou ex-presidiário, então não preciso dar uma volta
Por essa merda de prisão, pensando, ‘Com quem eles conversaram?’
Poderia ter sido meu mano, não meu nigga, foi quando

Eles encontraram minha tec, mas eu não tenho nada para dizer a vocês
Me sentindo meio tenso, porque eles acabam me mandando rio acima
Eu não poderia ser um dedo duro, porque eu não posso contar sobre meu nigga
Tec, não combinou com a arma, Woons (polícia) prestes a me deixar ir
Preso com a arma
Acusação, violei minha liberdade condicional

 

Observações finais

Mista Don’t Play lacrou a carreita de Project Pat! Foi aquela carimbada nervosa. Ele abriu mais espaço e, claro, foi e ainda é inspiração para inúmeros artistas. Eis aqui um álbum repleto de magnitude e atitude! A maneira como Pat abordou todo o conteúdo desse registro foi surpreendente. Seu flow ilumina a mente do ouvinte. Esses hi-hats adicionados ao longo da obra traz riqueza. A simplicidade das melodias e o forte sotaque de Memphis impregam bem a bateria, também. Samples de músicas baseadas em “Gorilla Pimp”, “Take the Charge” e “Life We Live” canalizam suas raízes musicais em Memphis. As influências sonoras da música, a individualidade e a criatividade de Pat provocaram um crescimento. Artistas como Gucci Mane, Drake e Wiz Khalifa dão muito respeito à sua música. A coragem de verbalizar as realidades explícitas do conteúdo de Pat foi pioneira em um som. Esse som produziu um talento mais maravilhoso principalmente nos artistas Yo Gotti e Young Dolph, que também são de Memphis. A textura de produção de Mista Don’t Play se entrelaça com as batidas e o assunto das faixas atuais do hip-hop. A orelha afiada do Three 6 Mafia por uma ousadia e a vívida narrativa de Pat fazem deste álbum um clássico da rua.

 

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