‘Icy’, o registro que congelou a amizade entre Gucci Mane e Jeezy

Tudo começou em 2005, na loja de sapatos Walter’s, no centro de Atlanta. Contra o pano de fundo do arco-íris de Adidas e Nikes, da loja Walter’s, Radric Davis, também conhecido como “Gucci Mane”, estava distribuindo CDs promocionais. Ele ofereceu um a Jeezy, que estava “iced out” [congelado, cheio de jóias] com diamantes e comprando o que parecia à Gucci como dez ou quinze pares de sapatos. Jeezy pegou o CD e elogiou Gucci por suas habilidades; ele já tinha ouvido algumas das faixas em ascensão.

Embora viessem de territórios diferentes — Gucci de East Side de Atlanta e Jeezy de Macon, da Old Fourth Ward da Boulevard — os dois reppers reivindicavam origens semelhantes. Ambos professaram ter vivido a vida do gueto. E ambos foram eficazes em canalizar suas experiências de rua para experiências mais profissionais.

Os dois reppers se deram bem, e eles concordaram que deveriam se reunir no estúdio. Jeezy achou que uma faixa de colaboração entre os dois poderia funcionar, e Gucci queria jogo. Gucci, que havia recentemente assinado com a Big Cat Records, de Atlanta, estava no meio de um álbum, e ele esperava que Jeezy contribuísse com alguns versos para um de seus singles. Gucci queria atribuir um pouco do poder da estrela de Jeezy a uma música em particular, uma faixa alegre (pelo menos comparada com a de Jeezy) chamada “Icy”, que tocava na fascinação dos reppers e groupies pelo brilho das jóias.

Quando Gucci e Jeezy se conheceram no estúdio, Gucci explicou o que ele estava fazendo com “Icy”. Mas Jeezy não parecia tão interessado. Esse tipo de coisa não era realmente o estilo dele. O conceito era muito cantado, quase alegre, contra o repertório mais sombrio de Jeezy. Jeezy tentou levar Gucci para outro material, mas Gucci continuou trazendo-o de volta para “Icy”.

Jeezy obedeceu, tagarelando com sua marca distintiva de poesia: “In my hood they call me Jeezy da Snowman … I’m iced out, plus I got snow, man” [No meu bairro eles me chamam de Jeezy da Snowman … eu sou gelado, eu tenho mais jóia, cara].

Para surpresa de todos, incluindo Gucci, “Icy” se tornou um sucesso underground. Em Dezembro de 2004, essa faixa tocou pesado na influente estação de rádio urbana de Atlanta, a V-103. Seu vídeo mais tarde ganhou um lugar de rotação regular no BET. E quando Gucci ou Jeezy — ou, ocasionalmente, os dois juntos — executavam a música ao vivo, a multidão ficava louca, gritando o refrão.

No que veio a ser interpretado como um caso de grande selo versus pequeno, o grupo de Jeezy havia abordado o selo de Gucci na primavera de 2005 com uma proposta indesejável. “Icy” tinha ficado tão quente — Jeezy quente —, que a Def Jam queria adquirir a faixa da Big Cat Records. O problema era que nem Big Cat nem Gucci estavam interessados em vendê-la. “Icy” era o maior sucesso de Gucci até o momento. Ele deu a luz à música. E então ele e Big Cat acharam que isso pertencia ao álbum de Gucci, que estava prestes a ser lançado, e não ao de Jeezy. Na verdade, Gucci e Big Cat já estavam lutando contra a percepção de que a música pertencia a Jeezy. Em um artigo de jornal sobre a ascensão de Jeezy, “Icy” foi descrita como “Sua música (junto com Gucci Mane)”. Gucci foi reduzido a um parentético.

E mesmo depois que as negociações sobre os direitos de “Icy” quebraram, Gucci tentou fazer com que Jeezy aparecesse no vídeo da faixa. Apesar de algumas aproximações, isso também não funcionou. Quando chegou a hora de gravar o vídeo, em Abril de 2005, duas coisas eram indiscutíveis. A primeira era que, no set, Gucci estava tão “icy” quanto Jeezy no dia em que se conheceram na Walter’s. O jovem repper estava vestido com um relógio de $50 mil, cravejado de diamantes amarelos, desenhado por Arabo, o “Joalheiro” de Nova York, e um pingente de 37 quilates que soletrava ICY em $40 mil de diamantes. A outra certeza era que, no momento em que as câmeras estavam rodando, o termo icy também se aplicava à relação entre os reppers que já foram amigos, ou seja, frio. O cabo-de-guerra sobre a faixa tinha sido pessoal. E o pessoal estava prestes a se tornar público.



Em 2015, a The FADER resolveu contar oralmente a história de Gucci Mane reunindo as pessoas que trabalharam com ele. Abaixo, algumas citações sobre “Icy”.

Kevin “Coach K” Lee (co-fundador da Quality Control Music, gerente de Gucci Mane de 2009 a 2013, ex-gerente de Young Jeezy): Conheci Gucci cedo, cara. Eu estava procurando por ele. Ele tinha uma música chamada “Fork in the Pot”, e essa merda estava bombando, então eu comecei a falar para a galera que eu estava procurando por ele. Um dia eu estava andando na Walter, uma famosa loja de tênis em Atlanta, e ele se aproximou de mim e disse, “Ei, eu sou Gucci Mane. Eu sou quem você está procurando.” Cerca de uma semana depois, estávamos no estúdio gravando “Icy”.

Zaytoven: Eu estava na barbearia e Gucci me chamou. “Ei, cara, Young Jeezy quer fazer uma música conosco.” Eu realmente não sabia quem era Young Jeezy, mas eu falei, “Legal. Eu vou deixar a barbearia, vou fazer uma batida, e vamos lá.” Tudo o que fizemos foi do zero. Não tínhamos coisas já pré-preparadas ou nada disso. Gucci disse, “Eu fiz o refrão, eu quero que você faça a batida.” Ele cantou o refrão, fiz a batida e fomos [para o Patchwerk Studios].

Kori Anders (engenheiro): Eu era um estagiário [no Patchwerk] naquela sessão de Jeezy [para “Icy”]. Naquela época, Gucci era um garoto alegre que estava feliz por ter conseguido colocar o pé na porta de um estúdio. Gucci e Jeezy estavam ambos no começo. Conheço muitas outras cidades, todas as sessões de estúdio são bastante isoladas, as pessoas realmente não se misturam. Mas em Atlanta, todos sabem de todos. É apenas um grande caldeirão.

Zaytoven: Eu era da Califórnia, então todos esses outros caras eram novos para mim. Essa [sessão] era a minha primeira vez ao conhecê-los. Gucci estava me levantando o tempo todo, dizendo tipo, “Sim, este é Zaytoven, ele é o melhor nisso, ele faz isso e aquilo!” Ele estava sendo exatamente assim, de verdade. Eu sou da Bay Area, então minha música parece um pouco diferente. Mas para Gucci, tudo o que fiz foi o máximo. Ele amou tudo o que fiz. Mas quando ele tocou a música [para Jeezy e seus caras], ninguém sentiu isso. Então Gucci disse, “Tudo bem, Zay, faça outra batida.” Mas eu já estava quase ficando com raiva. Eu sou renitente. Eu disse, “Bem, nah, eu não quero fazer nenhuma outra batida. Essa é a música com a qual você fez toda essa alegria.” Jeezy estava dizendo que queria fazer algo um pouco mais de rua, mas isso foi o que surgiu. As coisas que eu e Gucci fazemos têm sabor. É divertido. Ainda é uma música incondicional, ela tem uma melodia cintilante. Tem um pouco de brilho.

Coach K: Eles começaram a trabalhar em outra música. Mas Gucci continuava cantando esse maldito refrão. Ele estava cantando o refrão para todos. Eventualmente, eu falei com Jeezy, “Essa parada pode ser quente. Tem uma melodia. Ele continua cantando isso. Precisamos seguir em frente e dropar essa música.” Então eles entraram e fizeram.

Zaytoven: Antes de conhecê-lo, é como todo mundo em todo o estúdio, pessoas que não têm nada a ver com a música, que tinham uma caneta tentando escrever um verso para ela. Lil’ Will da Dungeon Family estava lá, e Gucci o fez cantar o refrão para nós.

Burn One: Gucci me mostrou “Icy” alguns meses antes de o som sair [em 2005], e eu odiei por causa do Auto-Tune em Lil’ Will. Gucci estava tão eufórico que colocou Auto-Tune em Lil’ Will, mas para mim isso era como uma blasfêmia. Eu indaguei, “Como você pode fazer isso com ele?” Três meses depois, explodiu.

Zaytoven: [“Icy”] foi perfeito. Você tem Young Jeezy, o cara mais sinistro nas ruas. Então você tem Gucci Mane, que é como um sujeito do underground que está tentando medrar. Ambos precisavam da música. Jeezy nem queria a música, mas ele precisava disso. Ele simplesmente não tinha uma música que definisse “Jeezy conseguiu a música mais quente” ou “Você já ouviu o novo cara, Jeezy, no rádio?” Ele não tinha isso. Então “Icy” foi isso. E para um cara como Gucci Mane, foi tipo, “Esse é o meu único grande passo. Este é o meu único grande passo no jogo, então eu não estou prestes a dar isso a ninguém.” “Icy” soou como um single de Jeezy porque ele está no primeiro verso, falando sobre jóias — e ele e as pessoas com quem se rodeava estavam sempre nos carros elegantes, com toda as joias, exibindo todas as garrafas — de modo que quase se adequava a ele. Mas não era a sua música. Era a música de Gucci Mane. Então o lance começou a ficar azedo.

Greg Street (DJ, personalidade de rádio e gerente inicial de Gucci Mane): Quando a rixa surgiu com Gucci e Jeezy, me afastei. Eu não queria fazer parte disso. [O selo] Def Jam estava tentando convencer Jeezy a pegar os direitos da música [“Icy”]. Def Jam queria a música para levantar a carreira de Jeezy. Mas na época, Gucci disse, “Jeezy está tentando levar minha música.” Eu estava tentando fazer Gucci entender que isso podia ser benéfico para ele, mas também, em algumas circunstâncias, deixar a pessoa assinada ter a música. Porque ainda será sua música, independentemente de quem a exponha! E se isso acontecer — se isso explodir — o céu é o limite para o que você pode pedir em um contrato. Mas ele realmente não entendia isso, porque ainda era um artista novo. Foi assim que a rixa começou.

Zaytoven: Eu nunca tinha produzido um hit antes. Eu ainda não tinha uma música no rádio. Nunca tive uma música no clube antes. Então, quando eu estava indo para o 112 ou Velvet Room, e o DJ tocava a música e todos estavam cantando as letras de “Icy”, eu estava pensando comigo, pasmo, “Espere um minuto.” Eu nem sequer posso descrever o sentimento. Era a música favorita de todos, era a música do verão. Gucci sabia, por isso disse, “Se eu segurar essa música para mim, todos saberão que a música é deste Gucci. Eu tenho a música mais quente do ano.” No momento em que chegou ao rádio, nem quis ouvir isso.

Greg Street: Nunca deveria ter se transformado em rixa. Poderia ter sido desde o início uma bela situação para ambas as partes — e se transformou em uma formidável situação para ambas as partes de qualquer maneira porque o registro é um clássico. A maioria desses desentendimentos no hip-hop poderiam ser resolvidos como dois homens adultos sentados e conversando.

DJ Drama (DJ, personalidade de rádio e fundador da série de mixtapes Gangsta Grillz): Eu e Gucci provavelmente nos conhecemos algum tempo depois que ele fez “Black Tee”. Naquela época, tudo era de boa. Quando ele e Jeezy surgiram, isso me colocou em um ponto foda para trabalhar juntos.

Todd Moscowitz (co-fundador da 300 Entertainment e veterano executivo de música, que assinou Gucci Mane enquanto presidente da Asylum Records em 2007): Depois de “Black Tee” e “Icy”, Gucci veio para Nova York com Jacob York e nós tivemos um encontro. Eu tinha um escritório grandão. Eu estava sentado na minha mesa, e Gucci escolheu a cadeira que estava mais afastada. Eu só lembro dele sentado lá com um imenso óculos de sol, e não me lembro de ele ter tirado. Ele disse muito pouco e ouviu muito e ele não desistiu de nada. Eu basicamente implorava para ele assinar conosco. Eu estava lhe dando um passo muito grande porque eu era um grande fã e eu estava muito apaixonado por isso. Sua expressão facial — eu não acho que mudou uma vez durante a reunião. Então ele saiu, e acabou assinando com a Big Cat logo depois disso, e começou a trabalhar no álbum Trap House.

 

Para dar um detalhamento maior, também vale citar a própria versão de Gucci sobre isso. Como dito em seu livro autobiográfico,

“Coach K gerenciava Young Jeezy, e ele estava procurando por mim para nos levar a fazer algo juntos. Aparentemente, ficamos com saudades um do outro no estúdio do Shawty Redd, onde nós dois trabalhamos até tarde. Lembrei-me então que Shawty Redd tinha me colocado no telefone com esse cara. Acontece que Jeezy estava ao lado da Walter’s, então nos reunimos no estacionamento do outro lado da rua.

Jeezy era de Macon, cerca de uma hora e meia ao sul de Atlanta. Ele se mudou para a cidade há alguns anos e agora estava trabalhando com Big Meech e a BMF.

Lembra quando eu disse que meus garotos nunca tinham ouvido falar de Meech ou BMF quando Doo Dirty nos contou sobre eles? Bem, quando conheci Jeezy, todos na cidade conheciam esses nomes. Eu juro que parecia que aconteceu da noite para o dia. As coisas em Atlanta tinham sido de certa forma e depois a BMF aconteceu.

Enquanto eu estava ciente de Meech, eu ainda não estava familiarizado com Jeezy além do nosso telefonema no estúdio do Shawty Redd. Mas ele parecia legal o suficiente e eu apreciei o fato de ele ter gostado da minha música. Nós concordamos em nos encontrar no dia seguinte para ver se conseguiríamos algumas músicas.

Antes de nos separarmos, trocamos CDs. Eu entreguei a ele o remix de “Black Tee” e ele me deu sua nova mixtape, Tha Streets Iz Watchin’.

Eu coloquei no CD player do carro quando saímos e a merda era sinistra. Como um grupo, decidimos que era uma boa idéia trabalhar com esse cara. Dois dias depois estávamos no Patchwerk.

Mas Jeezy e eu não estávamos na mesma página quando entramos no estúdio. Depois de tocarmos algumas batidas e lançarmos algumas idéias, parecia que não conseguiríamos tirar nada do chão. Jeezy estava dizendo que queria fazer algo de verdade e sujo, mas eu não ligava para nenhuma das batidas que ele estava tocando.

“Tem problema se eu chamar meu parceiro Zaytoven para vir aqui?” eu finalmente perguntei. “Suas batidas são muito boas.”

Com uma luz verde, liguei para Zay, que cortava o cabelo na barbearia. Eu disse a ele que precisava ir ao Patchwerk o mais rápido possível e salvar esta sessão.

Zay tinha me dado um CD de batidas recentemente e havia uma ali que eu estava preso. Eu ouvi pela primeira vez enquanto saía da cidade com os meninos da Z6C. Estávamos indo a Daytona para conversar com Daron “Southboy” Fordham, um ex-jogador de futebol que virou cineasta. Daron estava fazendo um filme, Confessions of a Thug — era como um musical de hip-hop — e ele queria que a Zone 6 Clique fizesse uma participação especial nele.

Eu encontrei um refrão para essa batida no carro, mas não encontrei a chance de chegar ao estúdio com ela. Mas o refrão estava preso na minha cabeça.

Zay carregou a batida e deixou tocar. Enquanto isso eu continuei cantarolando meu refrão para Zay.

“OK, esqueça tudo o que vocês têm feito aqui”, disse ele. “Essa é a música que você precisa fazer.”

Eu nunca o vi tão inflexível e confiei em seus instintos. Coach K concordou.

“Sim, vamos tentar”, disse ele.

Eu estava cantarolando a melodia desse refrão mais do que cantando porque eu não era muito melódico. Mas Jeezy tinha um amigo na sessão chamado Lil’ Will da lendária Dungeon Family de Atlanta, que poderia cantar de verdade. Então eu escrevi as letras para o refrão.

 

All these girls excited
Ooo ya know they like it
I’m so icy, so icy
Girl, don’t try to fight it
All yo friends invited
I’m so icy, so icy

[Todas essas garotas excitadas
Ooo você sabe que elas gostam
Estou tão gelado, tão gelado
Menina, não tente lutar
Todas as suas amigas estão convidadas
Estou tão gelado, tão gelado]

 

Assim que Lil’ Will colocou o refrão, todos no estúdio estavam a bordo. Bem, quase todo mundo. Jeezy ainda não tinha gostado. Não era o som sujo de rua que ele estava acostumado. Era melódico com um refrão cativante.

“Vamos fazer algo de rua, cara”, insistiu Jeezy. “Algo mais ousado.”

De alguma maneira a equipe de Coach e de Jeezy o persuadiu a fazê-lo. Nós fizemos nossos versos e assim que terminamos as cópias foram pressionadas. Poucos dias depois, Jeezy perguntou se ele poderia entrar no remix de “Black Tee” também, chegando logo depois do verso de Bun B. Eu estava animado por isso. Nós nos conhecíamos há alguns dias, mas tudo estava se encaixando bem.

Coletivamente, começamos a empurrar “Icy” e o remix da pesada “Black Tee”. Doo Dirty e até mesmo Meech, que eu ainda não conhecia, estariam nos clubes lançando a faixa para levar as strippers e DJs a bordo com as músicas. Antes que eu soubesse, Hot 107.9 e V-103 as mantinham em alta rotação. Meu barulho em Atlanta explodiu o teto. De repente, todos queriam um pedaço de Gucci Mane.

Como tudo isso estava acontecendo Def Jam decidiu que queria “Icy” para o próximo álbum de estréia de Jeezy. Jeezy era o estouro na época. Ele acompanhara a mixtape The Streets Iz Watchin’ com Trap or Die, um lançamento que era a trilha sonora da cidade. Ele estava andando com a BMF, e eles estavam dirigindo o show em Atlanta. Ele fez um contrato solo com a Def Jam e depois fez um acordo de grupo com Boyz N Da Hood sob a Bad Boy Records de Puff Daddy.

Mas mesmo com toda essa ascensão e apoio da indústria, Jeezy não tinha uma música estourada. “Icy” foi a primeira vez que uma música de Jeezy foi rotacionada para o rádio. Jeezy tinha “Over Here” e não me entenda mal, isso definitivamente estava matando os clubes, mas o rádio não estava tocando. Isso não era fora do comum. É assim que os sons saem de Atlanta, dos clubes de strip para cima. Ter meu segundo single tocado em todo o país — isso era fora do comum.

Def Jam me ofereceu cem mil dólares pelos direitos de “Icy”. Antes de a oferta chegar, eu finalmente conheci Meech, que queria pegar a música para ele e colocar seu artista Bleu DaVinci. Eu pedi uma quantia louca dele e ele se recusou. Mesmo assim Meech foi legal sobre a situação e continuou a promover a música nos clubes independentemente. Meech e eu sempre fomos legais. A coisa passou a não ser até eu recusar à Def Jam, então coisas começaram a azedar.

 

Jeezy e eu nunca fomos amigos, mas durante a ascensão de “Icy” nós ocasionalmente acertávamos os clubes para tocar a música. Quando eu recusei a oferta da Def Jam, essas apresentações conjuntas pararam. Dizem que foi porque Jeezy teve um problema comigo.

Jacob conhecia Jeezy há anos, desde quando ele estava no sul da Geórgia fazendo música cretina como Lil’ J. Então ele marcou uma reunião no Piccadilly’s para acabar com o que fosse necessário para ser esmagado. Eu estava ouvindo todo esse boato nas ruas, mas eu ainda não tinha idéia de onde o sangue ruim estava vindo. Não estava vindo de mim.

Imediatamente ficou claro que nada de bom sairia daquela reunião. A vibe estava fodida. Honestamente, me pegou de surpresa. Esse cara tinha um problema real comigo. Já não era uma situação de negócios para resolver. Tornou-se pessoal. Jacob estava aberto para ter a música incluída em ambos os nossos álbuns, mas a Def Jam não concordaria porque o meu álbum com a Big Cat estava programado para sair primeiro. Jeezy já havia colocado a música em sua mixtape Trap or Die e nós nem estávamos viajando nisso.

Mas ele estava chateado e não podia nem dizer o porquê.

“Ele sabe o que ele fez”, ele murmurou, seus olhos olhando para a mesa. Isso foi tudo o que ele disse.

Para seu crédito, Jacob conseguiu convencer Jeezy que nós ainda deveríamos gravar um vídeo para “Icy” e fazer um remix. Não era uma reconciliação, mas beneficiaria a nós dois.

O plano era tirar Boo da música, então Jeezy e eu gravaríamos novos versos para o remix. Jeezy fez o dele e depois saiu para ir ao banheiro ou algo assim. Enquanto gravava o meu, Jeezy voltou ao estúdio.

“Que porra é essa?!”, ele gritou. “Você tem niggas por aqui tentando me pressionar?”

Eu saí do estúdio e encontrei Black Magik, outro repper assinado com Big Cat. Armas foram desenhadas.

Eu não tinha certeza se Magik tinha tentado roubar Jeezy ou sacaneá-lo, mas algum tipo de briga acabara de acontecer. Jeezy estava fumegando e compreensivelmente, e ele estava pensando em colocar para fora. Mas eu não tinha idéia do que estava acontecendo. Então eu fiquei bolado também. O que diabos Magik estava fazendo vindo para a minha sessão, trazendo merda que iria estragar o meu dinheiro? Eu estava aqui trabalhando e agora Magik estava chegando e causando problemas.

Eu fiz Magik sair e Jeezy pareceu entender que eu não estava envolvido. Ainda assim, ele estava furioso. O que poderia ter sido uma oportunidade final para encontrarmos um terreno comum tornou-se uma oportunidade para mais conflitos.

De lá, tudo desceu rápido. Eu estava trabalhando para terminar meu álbum, mas parecia que metade da cidade estava começando a me atacar. Quando Jeezy decidiu que era “Foda-se Gucci”, um monte de pilotos de pau parecia cair na linha por medo de ir contra ele e a equipe que estava correndo com ele. Eles estavam dominando a vida noturna de Atlanta, então os DJs começaram a cortar “Icy” quando chegava o meu verso. Minha reputação na cidade passou de estrela em ascensão para maravilha de um só golpe.

 

Isso acendeu um fogo dentro de mim. Eu estava no local do meu amigo um dia — quando eu não estava gravando eu estava trampando pesado — e eu estou ouvindo esses caras falarem um monte de lixo sobre como o Gucci Mane terminou, que eu nunca teria outro grande som. Eu sentei lá absorvendo tudo, assistindo a cena no local da droga se desdobrar. Peguei uma caneta e um guardanapo e comecei a escrever.

Jeezy apareceu no Charlie Brown Field para a gravação do vídeo, mas nenhum de nós tinha mais nada a dizer. Ele estava tentando me jogar na cidade e isso funcionou. Mas eu sabia que tinha acabado de fazer um ótimo álbum e logo isso me levaria de volta à fanfarra. Eu só queria que este vídeo terminasse e terminasse com o cara. Eu superei essa merda.

Mas não acabou. Em algum momento, Black Magik assumiu a responsabilidade de lançar um monte de músicas atacando Jeezy, tentando usar a rixa Gucci-Jeezy para obter alguma notoriedade. As coisas já estavam ruins, mas quando Magik colocou essa merda na musica, acrescentou combustível ao fogo. Também tornou tudo público. Não houve mais sussurros. Tudo estava ao ar livre e Jeezy estava agora em um lugar onde ele realmente não tinha escolha a não ser responder. Mas quando ele fez, ele não veio atacando Magik. Ele veio na minha direção.

Eu estava na estrada indo para fora da cidade para um par de shows na Flórida, quando ouvi “Stay Strapped” no rádio. Jeezy falou muito sobre isso, mas foi algo que ele disse no final que realmente chamou minha atenção. Algo sobre como ele tinha dez mil para quem trouxesse minha corrente “So Icy”.

Eu lembro que no começo eu estava chateado que ele estava chamando minha corrente de porcaria. Eu paguei quarenta mil dólares por essa peça. Agora as pessoas iam me ver balançando e poderiam pensar que era falsa. Mas então isso me atingiu. Se era temporada aberta na minha corrente, era temporada aberta em mim. Havia outra recompensa pela minha cabeça.

Eu escrevi “Round 1”, minha resposta para “Stay Strapped”, no carro voltando de Tampa. Assim que voltei para Atlanta, fui ao estúdio para gravá-la. Black Magik acabou chegando para abordar um verso. Eu não era fã de como Magik se envolveu nas minhas consequências de Jeezy, mas isso não importava mais. Eu estava em guerra e em menor número. Eu precisava de todos os aliados que conseguisse.

Como eu estava fora da cidade, já me sentia atrasado em responder a “Stay Strapped”, então “Round 1” precisava sair imediatamente. Ace, meu DJ e gerente de estrada na época, me disse que lidaria com a divulgação dos clubes e estações de rádio, mas eu pensei que isso era algo que eu precisava sair e colocar nas mãos das pessoas. Eu não queria que ninguém pensasse que eu estava me escondendo enquanto meu DJ andava por aí fazendo meu lance.

“Relaxa, Ace”, eu disse a ele. “Eu estou indo até Blaze.”

Meu amigo estava lidando com essa stripper que dançava em um clube em Moreland chamado Blazin’ Saddles. Essa garota pode ser encontrada no livreto do álbum Trap House. Ela é uma das duas garotas nuas cozinhando crack no fogão. Então eu também a conhecia e queria ver se ela poderia fazer com que os DJs do Blaze tocassem “Round 1” e algumas outras músicas novas que eu tinha. Então eu e meu amigo fomos até lá.

Nós não estávamos com Blaze muito antes de ela e sua amiga nos convidarem de volta para sua casa, uma casa localizada em uma rua sem saída em Decatur chamada Springside Run.

E foi aí que aconteceu” [aquele tiroteio onde os caras invadiram a casa da garota onde Gucci atirou contra eles e matou Henry Lee Clark III, mais conhecido como Pookie Loc].

 

 

Fonte: A Autobiografia de Gucci Mane/ The FADER / A Ascensão e Queda de Big Meech e a BMF

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s